Falar de António Silva
Falar de António Silva e lembrar Svilar
O Benfica tem em mãos um assunto delicado: o que fazer com António Silva? Deixar andar, renovar e emprestar, ou vender? Uma coisa é certa: falta confiança ao jogador, que está a desvalorizar-se. Vamos ver se o clube da Luz aprendeu alguma coisa com a forma como tratou Mile Svilar, hoje um dos melhores guarda-redes do mundo, que na Luz só perdeu tempo.
MILE SVILAR, 26 anos, guarda-redes titular da Roma, com quem tem contrato até 2030, está, ao dia de hoje, cotado como um dos melhores guarda-redes do Mundo. Svilar foi um dos maiores erros do Benfica no século XXI. Melhor dizendo, a forma como o clube da Luz manejou o seu desenvolvimento desportivo, foi desastrosa. Chegado ao Seixal com 17 anos, bastava olhar para a forma como jogava para se perceber que estava ali um predestinado, que era preciso fazer crescer sem pressas, dando-lhe confiança através de uma entrada gradual na equipa principal, ou, como sucedeu com Oblak e Ederson, fazendo-o rodar noutros clubes. Os guarda-redes, para quem os erros são sempre ‘fatais’, precisam de aprender a viver com eles, e a Svilar não foi dada, em tempo devido, essa possibilidade. Depois de ter sido o guarda-redes mais jovem a estrear-se na Champions (Benfica,0-Manchester United,1) com 18 anos, a 18 de outubro de 2017, e de, em Old Trafford, ter tido uma noite infeliz, foi-lhe tirado o tapete e retirada a confiança. Seguidamente, andou a perder tempo na Luz, até que em 2022 rumou à Cidade Eterna onde veio a suceder a Rui Patrício na defesa das redes dos ‘giallorossi’.
E por que razão estou a recordar Svilar? Porque, com António Silva, o Benfica encontra-se numa encruzilhada em que deve tomar decisões importantes. É público e notório que, depois de uma entrada triunfal, com Roger Schmidt, que o levou a campeão nacional e ao Mundial do Catar, o rendimento do defesa central encarnado tem sido cada vez mais errático, denotando falta de confiança e sendo responsável por falhas comprometedoras. Por isso perdeu a titularidade para Tomás Araújo, esteve ausente da América do Norte e não está a ter o mais promissor dos inícios de temporada.
Abrem-se três vias ao Benfica:
Mantém António Silva no plantel (está na última época de contrato) e deixa que o destino marque a hora; renova contrato com António Silva e coloca-o, fora do País, por empréstimo; ou, pura e simplesmente, vende os direitos desportivos do jogador a outro emblema, recebendo aquilo que o mercado determinar.
A escolha de um destes caminhos depende do estado de alma do jogador e daquilo que o Benfica pensa de uma eventual regeneração que inverta o plano inclinado em que se encontra.
Em minha opinião, para jogador e clube, a pior opção será a primeira, porque nenhum deles controlará a narrativa. A segunda é uma forma séria do Benfica dizer que acredita no regresso de António Silva à sua melhor versão. A terceira, a mais pragmática, será a que evitará que o clube corra riscos e que o defesa faça ‘reset’ à carreira.
Com a quantidade de jogos que tem no horizonte próximo, do ponto de vista do Benfica, este assunto pode ser tratado durante o mês de agosto, o que não obstacularizará qualquer que seja a decisão, nem prejudicará o jogador. O que não deve fazer é o que fez com Svilar, em que perdeu tudo, rendimento desportivo, investimento e, até, credibilidade como um dos clubes do mundo que melhor sabe fazer crescer os jovens.
PS1 – Uma nota mais, relativamente ao Benfica e ao crescimento dos jovens: Daniel Benjaqui, nascido em Lisboa, defesa-direito de 18 anos, campeão da Europa e do Mundo de sub-17 por Portugal, não engana, o futuro pertence-lhe. Fazê-lo crescer até atingir o tremendo potencial que tem, passa a ser responsabilidade de Marco Silva. Acredito que Benjaqui esteja em boas mãos.
PS2 – José Mourinho acreditou em Andreas Schjelderup numa fase difícil da vida do jovem norueguês, evitou a sua saída do Benfica, fê-lo crescer em confiança, testemunhou como o extremo foi importante para os encarnados na fase final da época, e terá sido com orgulho que viu o extraordinário golo que marcou à Inglaterra e, sobretudo, o compromisso defensivo que revelou, uma das teclas mais batidas pelo atual treinador do Real Madrid na interação com Schjelderup. Special One.
JORGE JESUS nunca teve medo de desafios, e foi através de uma notável capacidade de se reinventar que esteve seis épocas seguidas no Benfica (mais, só Janos Biri, entre 1939 e 1947); foi ainda o destemor que o levou a aceitar liderar o Sporting durante o consulado de Bruno de Carvalho e, cumprido esse ciclo, que começou melhor do que acabou, resolveu aderir a projetos no estrangeiro, sendo o trabalho no Flamengo aquele em que brilhou com maior intensidade. De permeio, cometeu o erro de regressar ao Benfica, uma passo que estava destinado, inevitavelmente, a um estatelanço ao comprido, como aliás sucedeu.
Campeão em Portugal, Brasil e Arábia Saudita, vencedor da Libertadores e duas vezes finalista da Liga Europa, Jorge Jesus, aos 71 anos, não tem de provar nada a ninguém enquanto treinador. O futebol português conhece-o muito bem, nas muitas virtudes e em alguns defeitos, há décadas, não tendo constituído surpresa a sua escolha para suceder a Roberto Martínez. Porém, é minha convicção que Jesus, na liderança da Seleção Nacional, vai ter o maior desafio da sua carreira, não só porque não tem experiência na função, mas sobretudo devido às múltiplas situações que terá de resolver, até ter uma equipa em que se reveja estabelecida.
Depois de 36 anos de carreira, tendo dirigido, alguns por mais de uma vez, 16 clubes diferentes em quatro países, Jorge Jesus já viu de tudo e o seu contrário, e experimentou, nas diversas fases da sua vida profissional, todos os sistemas possíveis e imaginários. Como, enquanto selecionador, não terá problemas de plantel, JJ pode adoptar um sistema base, construir variáveis, e a partir daí proceder a convocatórias que encaixem no que pretende. Felizmente para ele (e para nós, enquanto adeptos da Seleção), a clubite tem cada vez menos interferência no ambiente da turma das quinas, caso contrário, aí sim, Jesus teria um problema, especialmente porque os benfiquistas não gostaram que fosse para o Sporting, e os sportinguistas não gostaram que tivesse regressado ao Benfica.
Quanto aos propósitos anunciados na apresentação como selecionador nacional, Jorge Jesus disse tudo certo, não fugiu a nenhuma questão e foi coerente no plano que apresentou. Vinculado ao que afirmou, deve levar a teoria à prática, tendo como único objetivo o sucesso de Portugal, e sabendo que será julgado pelos resultados que obtiver. Mas, depois de uma vida inteira no mundo do futebol, JJ sabe-o melhor do que ninguém, e, tendo como propósito estar à frente de Portugal no Mundial de 2030, terá consciência de que os testes intercalares – duas Ligas das Nações e um Campeonato da Europa – são de capital importância, não só porque a Seleção Nacional tem um estatuto a defender, como ainda porque a fasquia que a FPF lhe impôs está bem alta.
Aguardemos por setembro e pela primeira convocatória para termos uma ideia do que vai na cabeça de Jesus, que deverá fazer escolhas assertivas perante a abundância de valores acima da média que tem à disposição. Para já, o passado de Jorge Jesus no futebol justifica que, mais do que dar-lhe o benefício da dúvida, tenhamos certezas quanto aos méritos que possui. Se Jesus continuar a ser Jesus (e assim o creio), manter-se-á com convicções fortes (que por vezes escalam para teimosia), preferindo ir ao fundo com as suas ideias, do que flutuar com as ideias dos outros. É esse Jorge Jesus que faz falta a Portugal.



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