Mourinho diz adeus à seleção
Mourinho diz adeus à seleção
A opinião de João Rosado. O treinador do Benfica não está preocupado em ocupar o lugar de Roberto Martínez.
Os treinadores falam demais, expõem-se vezes sem conta às câmaras e aos microfones, passam horas intermináveis em conferências de imprensa, deixam-se mergulhar em discursos redondos e sem nenhum acrescento real, repetem mensagens antigas e que deviam estar sujeitas a imposto por estarem tão gastas.
E no entanto são os menos culpados. Em determinados momentos dizem o que não devem porque estão sempre lá, andam sempre à chuva.
Têm de fazer de diretores de comunicação, representam os presidentes, protegem os diretores-desportivos, são megafones da propaganda oficial e em cima de tudo isso assumem a responsabilidade de blindar o balneário e, se não der muito incómodo, de falar um pouco sobre a equipa e os adversários.
Com uma frequência inconcebível, as caras do costume enchem os noticiários desportivos e arrastam a indústria para a banalidade, mergulhando-a no cinzentismo típico de um circuito que se alimenta em permanência dos mesmos recursos, como se comesse comida estragada e apesar de tudo ficasse deliciado.
Em nome da decência, não se pode pedir muito mais aos que oferecem o peito às balas antes e depois dos jogos, semana após semana, meses após meses, anos após anos.
Não contando com variadíssimas outras intervenções, só com base nos calendários oficiais, cada técnico é requisitado a um ritmo avassalador, substituindo os que deveriam estar na primeira linha do contacto com os adeptos.
Os jogadores, por norma, são reservados a conta-gotas para os canais oficiais, desafiando a paciência e a tolerância do universo que de facto sustenta o sucesso da modalidade.
Cada clube e, por tabela, a generalidade dos ‘players’, sobretudo em Portugal, continua a olhar apenas para o umbigo e a estimular declarações como aquela que “incendiou” a última conferência de Imprensa de José Mourinho.
Com evidente piscar de olhos ao dérbi de Alvalade que se aproxima a passos largos, o ‘Special One’ admitiu que não gostava de ver o Sporting sagrar-se campeão da Europa e fez logo questão de avisar que passava ao largo das críticas que (o) iriam rebentar.
Nem Francesco Farioli, na condição de porta-voz do pensamento de André Villas-Boas a propósito do adiamento do Sporting-Tondela, seria capaz de fazer pior do que o técnico do Benfica no pré-lançamento da batalha decisiva pelo segundo lugar… seja qual for a cor do futuro campeão.
Como se as duas fossem incompatíveis, o setubalense sacrificou a urbanidade pela honestidade, assumindo que depois dele só o dilúvio. Acima da evolução do futebol nacional, da progressão da classe e do surgimento de novos heróis está o seu lugar na história e a épica conquista de 2004 ao serviço do FC Porto.
Ignorando de maneira inacreditável que foi ele quem desencadeou a revolução das mentalidades e promoveu a emigração e a independência de dezenas de colegas, conseguiu agora passar a mensagem de que se teve o privilégio de ir calçado para a escola todos os outros devem continuar a ir descalços.
Mourinho atreve-se a desbaratar o próprio legado e Rui Borges também não conseguiu responder muito melhor, revelando-se incapaz de pronunciar a palavra ‘Benfica’ e de a associar à conquista da Liga dos Campeões.
Preferiu agitar a bandeira da portugalidade, que neste caso fica enrolada na escravatura mediática a que estão condenados os homens que não se podem esconder atrás dos editoriais nem dos comunicados.
Mou’ sabe isso como ninguém e no arranque da semana consagrada à seleção já deve ter percebido que se um dia quiser estar no lugar de Roberto Martínez o comentário sobre o Sporting foi simplesmente… demais.



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